4a. Maratona – Frankfurt Marathon – 30 de outubro de 2005

Àquela altura, já estava em meus planos a possibilidade de correr uma maratona fora do Brasil. Creio que este seja um sonho para qualquer maratonista.

E em meu caso, a primeira oportunidade veio quando eu faria uma viagem a trabalho para a Alemanha e vi que ela coincidiria com a maratona de Frankfurt.

Não tive dúvidas e fiz minha inscrição, pois eu teria que permanecer ali por perto durante aquele final de semana, indo no domingo à noite num voo de Frankfurt para Genebra.

Dessa vez eu estava melhor preparado, então as expectativas de conseguir um bom tempo de prova em um percurso praticamente plano, aumentaram minhas expectativas.

Porém. talvez por ser uma experiência nova, a qual trazia um significado especial para mim, senti uma certa preocupação antecipada de que algo não corresse bem, conforme eu havia planejado.

Eram possibilidades remotas de problemas que incluíam desde o cancelamento da viagem, alguma lesão antes do desafio ou outro contratempo qualquer. Naquele momento, deduzi com certa indignação que aquilo acontecia comigo pela primeira vez.

Um fato interessante é que eu já havia identificado tal sensação em outras pessoas e, com assertividade, a diagnosticava como um sintoma do conhecido “Medo de ser feliz”.

Porém, agora o problema estava comigo e confesso que precisei de alguma concentração adicional para que não atrapalhasse o alcance de meu objetivo naquele momento.

No final das contas, tudo correu bem. Fiz o percurso sem contratempos e, se minha meta era correr abaixo de 4 horas e meia, cruzei a linha de chegada em 4 horas e vinte e sete minutos, ainda conhecendo um pouco mais de uma cidade adorável.

Foi uma emoção diferenciada, principalmente porque um novo e distinto tipo de superação fora vivenciado.

Hoje, consigo olhar para trás e ver que, embora não tivesse percebido antes, senti este mesmo tipo de medo desnecessário em diversas outras ocasiões durante minha vida.

Antes de contar um exemplo garimpado em minhas próprias vivências e ressaltando que se trata de algo que nunca aconteceu comigo, imagino o que passa pela cabeça de alguém quando se torna o ganhador solitário de um prêmio acumulado, uma grande bolada, em alguma loteria qualquer.

Após a natural empolgação inicial, e também após os primeiros contatos com as novidades que causam impactos tão absurdos ao estilo de vida do ganhador, já ouvi histórias em que alguns dos ganhadores, a partir de algum momento, começam a sentir medo do que poderá lhes acontecer como contrapartida do inesperado benefício recebido.

É certo que o ser humano se adapta a tudo, principalmente se as mudanças são para melhor, como nesse caso. Por outro lado, apesar da maioria elevar seu patamar de vida em todos os níveis, são comuns os casos de pessoas que não se adaptam à nova situação e perdem tudo o que ganharam, além de vida pacata e feliz que possuíam antes.

Em uma escala incomparavelmente menor, houve um momento em que uma sensação similar me ocorreu. Contradizendo todos os prognósticos, eu recebi a confirmação de que havia sido promovido para uma posição executiva na empresa em que trabalhava. Era uma situação bastante improvável, pois eu ocupava um cargo dois níveis abaixo de minha nova posição e isso nunca havia ocorrido antes, pelo menos era o que todos falavam.

Mas o fato é que eu iria assumir uma responsabilidade muito grande e, por conhecer plenamente seu alcance, nem tive a chance de me empolgar.

Tendo meus pés fincados no chão desde o momento inicial, sendo bastante realista perante os desafios que iria enfrentar e com o suporte total de meu antecessor, pude desenvolver um planejamento adequado, o que me ajudou muito a partir do momento de posse no novo cargo.

Mas agora, após tanto tempo, consigo discernir muito bem os momentos em que não consegui evitar algum deslumbramento pelo poder, deveras limitado, e também dos momentos em que ingenuamente não percebi e não filtrei alguns falsos afagos.

Confesso que nesses momentos, apesar da oportunidade e da confiança que recebi, tive medo de não alcançar o sucesso e fracassar.

Não que o processo todo que se seguiu tenha sido fácil, pois enfrentei diversas situações bem difíceis. Mas, reconheço que pessoas muito importantes em minha carreira fizeram muito mais por mim do que precisariam fazer. Além disso, muitas das competências que acredito possuir hoje, somente se desenvolveram graças aos apertos pelos quais passei. Por isso, tenho apenas motivos para agradecer e sei que venci esta etapa de minha vida.

Hoje, com a sensibilidade aguçada por tão rica experiência, consigo às vezes, perceber alguma insegurança em jovens profissionais que temem o sucesso e, se protegendo dele, criam seus próprios argumentos para não vencer, impõem a si mesmos, certas dificuldades ou bloqueios para justificar antecipadamente suas limitações quase sempre imaginárias e, até mesmo, eventuais futuros fracassos.

Nesses casos, gosto de compartilhar com eles um ensinamento que um dia alguém generosamente me deu e que diz assim:

“Se algo muito bom acontecer graças à sua “boa sorte”, muito além de suas expectativas, agradeça com sinceridade e se comprometa em transferir uma parcela dos benefícios recebidos em prol de causas que valham a pena e ajude outras pessoas. Ou seja, retribua e amplie seu legado.”

Uma sensação de leveza e energia tomará conta de você e, assim como eu, você nunca terá medo de ser feliz.

3a. Maratona – XI Maratona de São Paulo – 17 de abril de 2005

Apesar de fazer uma preparação bastante diversificada, correr pela segunda vez a maratona de São Paulo trazia o objetivo principal da continuidade. Eu já corria há quase 3 anos e havia decidido que as corridas de rua seriam o meu esporte definitivo.

O percurso dessa corrida nunca foi fácil, mas essa edição da prova teve a inesperada vantagem de ter ocorrido a uma temperatura não muito alta. Correr sua primeira metade nunca foi algo tão difícil, porém a segunda parte, que incluía um trecho dentro e ao redor da USP – Universidade de São Paulo, sempre trouxe e continuou trazendo muito desgaste e dificuldades no decorrer dos anos, principalmente quando o calor foi intenso.

Por esse motivo, a partir dessa maratona, pedi ajuda. Do 21º quilômetro até o 31º, minha filha Fernanda me acompanhou. E do 31º ao 42º, a outra filha Cecilia, tratou de me puxar para que eu conseguisse finalizar o percurso. Como poderão ver em futuros relatos, essa estratégia passou a ser utilizada com frequência e sempre com bastante sucesso.

Algo similar ocorreu em minha vida profissional quando, numa certa tarde, um documento literalmente aterrissou sobre minha mesa.

Era uma simples sugestão enviada por um funcionário e que integrava um programa de melhoria contínua, na época, bastante disseminado e popular na empresa BASF, onde eu trabalhava.

Falar sobre os desdobramentos dessa ideia seria suficiente para um livro exclusivo, tamanha era a dimensão e a complexidade dos desafios que ela trazia. Obviamente, estou falando de desafios de alto nível, daqueles que sempre gostei de ter, mas enfim, eu nunca poderia vencê-los se não houvesse uma mobilização especial para eles.

Sob minha perspectiva, meu grande mérito nessa história toda foi acreditar na ideia em todos os momentos, desde o princípio até o momento em que um projeto realmente inovador, com características que o tornaram referência em sua forma e área de atuação, se transformou em realidade.

Porém, sua realização teve profissionais protagonistas de primeira qualidade. Em diversos momentos, percebi que minha melhor contribuição se resumia em tentar não atrapalhar. Felizmente, creio que consegui fazer isto também.

Lembro-me dos que cuidaram com carinho do projeto quando ele ainda não possuía estrutura alguma. Sua perseverança, ou mesmo esperança, beirava o cúmulo do otimismo. Impossível também me esquecer daqueles que me trouxeram inúmeras ótimas ideias e que ajudaram a formar aqueles estudos iniciais em um empreendimento que possuía potencial passível de concretização, apesar dos diversos obstáculos que enfrentou.

E quando a coisa cresceu para além das fronteiras regionais e passou a ser desenvolvido com a ambição de conquistar parcerias de repercussão global, eu não poderia encontrar um aliado tão talentoso quanto visionário como tive a sorte de poder contar na sede global da empresa.

Devo admitir que nunca, em nenhum momento, tive facilidade para liderar o enfrentamento de todas as barreiras que foram surgindo etapa a etapa.

Enfrentamos céticos, pessimistas, lideranças oposicionistas sem qualquer argumento que justificasse seus posicionamentos, incrédulos e até mesmo invejosos sem causa, mas não me recordo de um só momento em que passou pela cabeça desistirmos de nosso sonho.

E, quando chegou o momento da concretização, ou seja, quando eu precisava de alguém que colocasse em operação aquela bela instituição que estava prestes a nascer, mais uma vez tive o suporte da pessoa certa e na hora certa.

Em resumo, com a ajuda e o suporte de pessoas muito especiais, assim como em minhas maratonas, somente precisaríamos continuar em frente até a linha da chegada.

É certo que a comparação termina por aqui, até porque quando instituímos uma organização da dimensão da Fundação Espaço Eco, que integra uma empresa global líder de mercado como é a BASF, uma simplista analogia com uma maratona não faz o menor sentido. Talvez, um parto complicado para o nascimento de uma criança forte e saudável pudesse ser uma melhor comparação.

Mas, independentemente disso, agradecer a ajuda de minhas filhas nas maratonas, assim como às pessoas criativas, competentes, resilientes e inovadoras que estiveram comigo, sem me esquecer das lideranças que acreditaram naquele maravilhoso projeto, isso sim, é adequado e completamente justo.

Que esse singelo agradecimento seja o prenúncio para muitas outras maratonas, e também represente o desejo para uma vida longa e próspera à Fundação Espaço Eco.

2a. Maratona – X Maratona de São Paulo – 2 de maio de 2004

Eu vivia uma fase bastante agitada em minha vida. O cotidiano corporativo intenso se contrapunha drasticamente à busca de um estilo de vida mais equilibrado. Mas, de qualquer modo, eu estava convicto do meu papel como um agente disseminador da importância da atividade física e dos bons hábitos para um melhor resultado pessoal e profissional de minha equipe.

Por isso, eu participava de diversas atividades que pudessem me colocar como exemplo. Aliás, sempre acreditei que exemplos valem muito mais que palavras.

Assim, mesmo com um histórico recente de algumas lesões, a inscrição para a X Maratona de São Paulo foi uma oportunidade para mostrar que minha atitude não era somente um discurso. Por outro lado, essa decisão foi um ato de coragem com certa dose de irresponsabilidade. Minha rotina de treinos era mais que suficiente para corridas de curta e média distância, mas para esta maratona, eu não tinha qualquer outra ambição que não fosse simplesmente chegar.

Lembro-me bem daquela manhã de sol. Com a cabeça cheia outros assuntos alheios àquele evento esportivo, parti para mais um novo desafio. Caso não tivesse o suporte de meu inesquecível amigo Valdomiro Manoel, que infelizmente já nos deixou, eu nunca teria conseguido alcançar meu objetivo. Mas, afinal, cruzei a linha de chegada em 5 horas e 21 minutos e percebi que aquele exercício de resistência havia me ensinado algo muito importante para os maratonistas, ou seja, aprendi a conhecer profundamente os limites de meu corpo.

A partir dessa corrida e até hoje, nunca terminei qualquer percurso com a sensação de ter ultrapassado o limiar seguro de minha capacidade. Algo que passei a usar em outras situações de minha vida.

Por exemplo, quando consegui adquirir o primeiro imóvel de minha vida, graças a um longo financiamento, eu não imaginava viver a experiência que algumas coincidências me proporcionaram. Era um prédio novo dentro de um condomínio que já possuía um outro mais antigo completamente ocupado e, pelo uso contínuo por diversos anos, apresentava sensíveis sinais de desgaste. Casualmente, eu era morador desse edifício mais antigo, mas como locatário.

Ao receber as chaves do meu, eu disse “meu” apartamento, percebi que eu me tornara involuntariamente o único condômino que conhecia os dois prédios muito bem. Ninguém mais tinha o mesmo perfil.

Durante o processo de recebimento do novo imóvel, construí uma relação muito boa com outros novos moradores, por isso, quando houve a reunião de integração do condomínio, eu fui eleito por unanimidade como o novo síndico.

Não vou me aprofundar nessa história porque isso daria um livro completo com muitos capítulos de muitas páginas. Mas enfrentar aquele desafio inesperado, embora aparentemente singelo, acabou trazendo ricos em aprendizados, alguns agradáveis e outros nem tanto.

Foi minha primeira experiência oficial como líder, afinal alguns funcionários reportavam diretamente a mim. E essa pequena experiência foi bastante útil em minha vida profissional que, por sinal, tornou-se bem mais complexa pouco tempo depois. Além disso, melhorar o local onde eu morava, e perceber que tais melhorias traziam benefícios para mais de uma centena de famílias, era também um ponto bastante positivo. Enfim, foi um período intenso e repleto de novidades.

Contudo, os principais desafios, nos quais o grau de dificuldade crescia a cada momento, estavam na gestão das pessoas nem sempre dispostas a conviver contribuindo com aquele processo de integração. A cada dia, os problemas resolvidos pouco significavam e o problemas pendentes, por menores que fossem, geravam atritos e situações de estresse muito mais fortes do que minha baixa resiliência àquela altura da vida.

Para complicar e fragilizar minha capacidade de resistir às ameaças e provocações, eu optei por um modelo de gestão democrático. Eu me disponibilizava para ouvir todas as reivindicações e reclamações de moradores, os quais não possuíam o menor bom senso. Eu continuava recebendo apoio das pessoas que estavam comigo, todavia, no final das contas, eu era o único responsável formal daquilo e o foco estava em mim.

Logo, alguns sintomas físicos decorrentes daquele desgaste já se tornavam visíveis, mas continuei firme e, em um certo momento, decidi fazer algo que em minha cabeça traria satisfação unânime. Havia um problema crítico em ambos os prédios e, com meu conhecimento técnico, consegui aprovar um investimento que traria uma solução simplesmente ideal.

Dei o máximo de mim e, após algum tempo, tudo ficou pronto. Devo admitir que o resultado final foi até melhor que minhas melhores expectativas.

Logo que recebi o documento de entrega da obra, fui para minha casa. Porém, logo que entrei, alguma coisa dentro de mim clamou por reconhecimento. Após tantas críticas injustas, eu merecia receber um elogio. Não, um elogio só, não. Eu queria muitos elogios.

Assim, tomei o elevador novamente e desci até o pátio de entrada. Em minha santa ingenuidade, eu imaginava que várias pessoas não hesitariam em reconhecer meu trabalho como síndico daquela comunidade.

Cheguei de mansinho e fiquei à espera de todos.

Após uns dez minutos, apareceu uma senhora que morava no edifício mais antigo. Ela me viu e se aproximou com uma suspeita calma. Quando chegou, eu a cumprimentei, ela levantou seu rosto e, sem que eu pudesse sequer reagir, despejou sobre mim todas as críticas que pode. Acredito que a escutei por cerca de cinco minutos, então meu limite de segurança me avisou que alguma coisa mais decisiva deveria ser feita exatamente naquele momento.

Deixei a moradora praticamente falando sozinha e voltei novamente para casa.

Eu havia vencido o desafio com a maior dedicação e competência que pude agregar, mas seu final havia chegado.

Telefonei imediatamente para a empresa que administrava as contas do condomínio e marquei unilateralmente uma assembleia extraordinária, cuja pauta possuía dois itens: “Prestação de contas” e, “Eleição de um novo síndico”.

Todos se surpreenderam e tentaram mudar minha decisão, mas não houve jeito. A partir daquele dia, eu voltava a ser um simples condômino.

De todas as lições que aprendi naquele período, a mais importante foi renunciar eternamente à ingênua esperança de conseguir, em qualquer circunstância, agradar a todos os envolvidos em meus projetos ou decisões, pessoais ou profissionais.

Esta foi uma lição para toda a vida. Não nego que tive algumas recaídas, afinal sou humano, mas com o tempo consegui tirar muito proveito disso.

E outra lição, não menos relevante, foi manter atenção aos meus limites físicos e emocionais. Nunca desisti de uma corrida, mesmo cansado como estava em minha segunda maratona, mas não hesitarei em fazê-lo se meu limite for ultrapassado.

Esta é uma questão de duas perspectivas: uma delas relacionada com nossa sensibilidade aos sinais que o corpo nos dá. E outra, bem mais difícil, é respeitar estes sinais e parar, mesmo que nossas fundamentais persistência e determinação, nos implorem para continuar.

Evidente que elas sempre serão ouvidas, pois são características das pessoas vencedoras, mas a decisão de seguir em frente ou não estará sempre e somente aqui, dentro de mim.

1a. Maratona – Maratona das Águas – 23 de março de 2003

A experiência de correr pela primeira vez a distância de 42,195 Km é algo especial por diversos aspectos. Inicialmente, por não ser algo tão comum, também por ser desafiador, depois pelo temor gerado por diversas histórias assustadoras já vividas por corredores experientes, e ainda pela lenda do enfrentamento da tal muralha que se ergue à frente dos atletas após ultrapassam a distância mágica dos 30 km.

Enfim, pessoalmente, eu conheço muitos corredores infinitamente superiores a mim, mas que nunca se sentiram seguros o suficiente para correr uma maratona.

Em meu caso específico, confesso que enfrentar minha primeira maratona era uma meta desde o momento em que comecei a correr, mas isto não significa que eu estava plenamente preparado para ela. Evidentemente, treinei bastante, recebi o suporte de um corredor experiente, mas em nenhum momento, tive qualquer certeza se conseguiria ou não concluir tal distância.

Escolhi uma prova no interior de São Paulo que nunca havia sido realizada antes, ou seja, minha discreta opção chamou-se 1ª. Maratona da Águas e cruzou um bom pedaço do interior do estado de São Paulo.

O percurso se iniciava na cidade de Amparo, passando depois por Monte Alegre do Sul, Serra Negra, Lindóia e terminando em Águas de Lindóia. Não me recordo bem, mas ouvi dizer na época, que um pouco mais da metade do percurso era em aclive e um terço em declive, ou seja, quase como subir e descer uma grande montanha.

Com suporte direto de minha filha e companheira Cecilia, que correu comigo os últimos 15 Km, completei o percurso em 4 horas e 57 minutos. Nada mal para um intrépido iniciante.

Mas já que comecei falando do desafio que foi correr minha primeira maratona, contarei agora um pouco de um outro desafio inicial em minha vida que foi a batalha pelo meu primeiro emprego logo após sair da universidade.

Na época, meu pobre e frágil projeto de carreira se resumia a tomar posse imediata de meu diploma de engenharia e conseguir urgentemente um emprego. Hoje, vejo como os jovens com meu perfil se preparam desde a universidade e sinto um pouco de vergonha, ou talvez inveja. Lamentavelmente, eu possuía um nível de informação muitíssimo menor, e confesso que também não conhecia nada sobre as características comportamentais necessárias para um empreendedor. Aliás, eu tampouco sabia o que era ser um empreendedor.

Assim, me tornei “Procurador do Estado”.

Sim, em meus tempos de recém-formado, este era o melhor jeito de conseguir um emprego. Todos os domingos, eu ia até a banca de jornais mais próxima e comprava o jornal O Estado de São Paulo e ficava procurando.

Para ampliar minhas dificuldades, o país vivia uma crise – felizmente, isso acabou. –  E, por esse motivo, o caderno de empregos do Estadão vinha com pouquíssimas páginas.

A saída foi buscar atividades alternativas, o que me levou a algumas escolas de informática. Eu dominava uma linguagem de microcomputadores, o BASIC, e isto me possibilitou ganhar algum dinheiro lecionando em escolas de informática, muito pouco é bem verdade, mas o suficiente para garantir a dose mínima de autoestima e resiliência às dezenas de respostas negativas que eu seguia recebendo com o passar dos meses.

Já que estou falando de desafios, devo dizer que, por diversas vezes (multiplicadas por dez), eu chegava à conclusão inevitável de que nunca chegaria o momento em que alguma empresa tomaria a decisão de dar uma oportunidade para mim.

Meu fundamental diferencial, desenvolvido a fórceps naquela difícil fase de minha vida, foi uma composição generosa de alguns ingredientes, entre os quais, perseverança, otimismo, intuição, crença em todas as improváveis oportunidades, fé e, evidentemente, o essencial apoio de minha família. Felizmente, como disse certa vez Ariano Suassuna, esse jeito “realista esperançoso” tornou-se uma de minhas principais características até hoje.

Um detalhe crucial: eu não conhecia a força e o impacto do termo “networking”. Se conhecesse e praticasse isso, pelo menos um pouco, minhas chances teriam sido bem maiores.

Assim, quando a mais improvável oportunidade apareceu, talvez por acreditar nela, o meu primeiro desafio profissional foi surpreendentemente vencido.

Devo admitir que chegar a essa conquista foi muito mais difícil do que concluir minha primeira maratona. Mas ambos os momentos foram inesquecíveis, tanto o momento em que cruzei a linha de chegada da corrida, quanto o momento em que entrei pela primeira vez naquela empresa como seu novo funcionário.

O bem e o mal

Por Vitor Seravalli

Há um lado de mim que não sabe o que é a generosidade, que não perdoa e que não demonstra sequer a mínima empatia. Por isso, não o reconheço. Aliás, vou mais adiante e digo que já o neguei por inúmeras vezes. Porém, quando menos espero, vejo-me pensando, agindo e falando através dele.

Em alguns momentos, tive a certeza de tê-lo dizimado de mim. Pouco tempo depois, notei-me ainda mais arrogante, insensível e, paradoxalmente, frágil e susceptível sem ele. Fui surpreendido por minhas certezas e, por completa ausência de referências, cometi erros displicentes, típicos de pessoas que não sabem o que podem perder, e perdem.

Após tanto tempo fugindo de mim mesmo, aprendi que esse lado aparentemente negativo, contraditório e, indesejado de mim, é o contraponto que me faz usar a plenitude de meus valores para avaliar, discernir e escolher entre o certo e o errado, os quais sempre são oferecidos como opções em minha vida cheia de dúvidas.

Com isso, descobri que não sou o bom rapaz que imaginava ser. A princípio, isso me frustra um pouco, mas logo esse choque de realidades faz com que eu me sinta mais leve, mais aberto para melhorar a pessoa imperfeita e real que eu nunca quis ser, mas sou.

Há pessoas que simplesmente escolhem o lado que buscavam rejeitar. Mas, aderir ao lado negro da força, como mostra o vilão Darth Vader em STAR WARS, mostra-se a pior de todas as alternativas com o passar do tempo. E então, a melhor das saídas é mesmo aprender a conviver com o bem e o mal em uma mesma dimensão, aprendendo em cada situação a lidar com aquilo que nunca nos abandona, o dilema.

Aliás, uma das principais habilidades dos líderes plenos, que entendem a importância de seu papel na construção do desenvolvimento sustentável, é a coragem e inteligência para enfrentar dilemas. Quanto maior seu nível de responsabilidades em uma organização, muito maior será a quantidade e a complexidade desses dilemas.

Sem negar, mas tampouco polarizando em qualquer dessas duas perspectivas individuais tão antagônicas, sigo minha vida tendo sempre as opções de escolher entre o que parece ser o mais correto, mas mais difícil, e o incorreto, normalmente mais fácil. Sempre, haverá o risco do erro, mas nunca deverei priorizar a omissão em detrimento da responsabilidade.

Meus valores serão a fundamental referência ética para minhas escolhas, e o livre arbítrio será sempre o meu maior poder. Fácil, definitivamente, não é. Mas por enquanto, tudo corre bem.

E por aí? Tudo bem também?

Fonte imagem: Wikimedia Commons

Sabedoria

Por Vitor Seravalli

Como sempre, eu seguia apressado e, enquanto cruzava a mesma grande praça de todos os dias, não via os sinais do início daquela primavera. Aliás, eu estava em uma fase de minha vida em que notava poucas coisas e, mesmo assim, de modo vago. Fazia, ou pensava que fazia, várias coisas ao mesmo tempo. Por isso, não sobrava tempo para ver as flores, o nascer do sol e, tampouco, as estrelas. Pensando bem, eu nem mesmo prestava muita atenção nas pessoas importantes de minha vida. De qualquer modo, eu levava comigo todas as justificativas, caso alguma delas, tão carentes, pedisse que eu a escutasse de modo ativo. Se elas soubessem de meus problemas, não seriam tão exigentes comigo.

Eu agia como se estivesse compenetrado, mas de fato eu estava completamente disperso. Por isso, quase não percebi quando um senhor bastante idoso, mas jovial e elegante, me chamou. Perguntou as horas e fez menção de pedir alguma informação. Eu quase fingi que não o vi, pois seguia para um compromisso importante e, como de costume, estava atrasado. Mas, enfim, parei e, olhando meu relógio, disse que eram três e meia. O velhinho agradeceu. Ia fazer uma pergunta específica, mas notou minha impaciência e decidiu deixar-me ir, mesmo sem perguntar.

Ao notar sua reação, interrompi a caminhada e me aproximei dele. Sua expressão de reprovação pela minha desnecessária pressa incomodou-me de alguma forma. Apesar de sua opinião não significar nada para mim, notei algo forte em seu olhar e quis saber um pouco mais sobre ele.

O velhinho sorriu e pediu para que eu me sentasse ao seu lado. Hesitei, pois como disse antes, estava com pressa. Contudo, minha intuição fez com que eu me acalmasse e, por algum motivo desconhecido, me acomodei. Aquele homem possuía um olhar sereno e sua expressão transmitia uma estranha e positiva energia, da qual meu corpo não conseguiu se furtar. Puxei conversa e, logo ele começou a falar.

Inicialmente, quis saber sobre mim. Pediu que eu lhe contasse sobre coisas vagas, como por exemplo, minhas aflições, preocupações, angústias, dúvidas, enfim, ele queria compreender a óbvia relação entre meus passos tão acelerados e meus problemas. Vi uma desconfortável ingenuidade em suas perguntas, mas apesar de meu atraso iminente, não consegui mais deixá-lo. Pelo contrário, comecei a descrever minha rotina como se quisesse iluminar o enorme contraste que existia entre nós dois. Ele me escutava com atenção e seus olhos reagiam sem surpresa às minhas caras e bocas. No fundo, eu tinha o objetivo de impressioná-lo, mas ele já parecia saber de tudo, antes de minhas palavras.

À medida que ia descrevendo minhas dificuldades, vivia a sensação de retirar um enorme peso de minhas costas. Nunca alguém se dera ao trabalho de me ouvir daquela forma tão plena. E eu nunca imaginei ser capaz de me despir da armadura inútil, que me transformava em alguém muito diferente do que eu queria ser.

Quando terminei meu surpreendente e absurdo relato, olhei para seu rosto e vi que ele havia acreditado em mim, como se estivesse revivendo algo que fizera parte de sua própria experiência pessoal em um passado distante.

Fiquei à espera de um feedback, mas antes ele ainda perguntou sobre meus sonhos e sobre minha família. Quis também conhecer minha visão pessoal e meus objetivos de longo prazo. Por último, perguntou-me a respeito de meu entendimento sobre a vida. Definitivamente, eu o compreendia cada vez menos e não tinha a menor ideia de onde ele queria chegar.

Falou-me sobre incoerência de construirmos muros, quando deveríamos construir pontes em relação aos nossos relacionamentos. Contou sobre a importância de perdoarmos as pessoas que nos machucam, sem levar ressentimentos ou qualquer rancor. Recomendou a escolha perene pelo amor em detrimento do ódio. Mostrou-me todas as vantagens de usarmos o tempo a nosso favor, para fazermos as coisas que realmente nos importam. E entre outras sábias lições, sugeriu sempre a preferência de primeiro escutar, depois falar.

Quando terminou, o adorável velhinho ficou pensativo. Apoiou os cotovelos sobre os joelhos e suas mãos apoiaram seu queixo, enquanto ele olhava o horizonte como se estivesse buscando alguma coisa muito importante ao alcance de seus olhos. Eu o observava atento e nem me lembrava mais de meu compromisso.

Diversos pensamentos vinham à minha mente refletindo tudo o que deveria ter sido feito e não foi, as lições que deveriam ter sido aprendidas e incorporadas à minha forma de escolher, de decidir e de viver minha própria vida. Não sei o porquê, mas aparentemente tudo estava escondido em algum lugar secreto e inatingível dentro de mim, e agora se tornava tão claro, tão nítido aos meus olhos.

Algum tempo depois, tomei consciência do óbvio. Não havia nenhum velhinho. Eu mesmo estava sentado sozinho em um banco daquela praça, na mesma posição que imaginei a personificação do pouco de sabedoria que incorporei durante a vida, naquele sábio ancião.

Sempre soube que a sabedoria é algo que quanto mais buscamos, mais parece se distanciar de nós. Todavia, se quisermos liderar nossas vidas, nossos projetos pessoais e profissionais, e decidirmos assumir o papel de um eficaz agente de mudanças em prol de um mundo melhor e mais sustentável, não poderemos abrir mão de nada do que vida já nos tenha ensinado.  Isto significará assumir o compromisso de sermos, no presente, a melhor versão da pessoa que podemos vir a ser.

Levantei-me e segui meu caminho sentindo-me uma nova pessoa. É verdade que não houve qualquer metamorfose. Meus problemas e minhas falhas ainda permaneciam comigo. Mas um novo entendimento sobre sabedoria, essência de minha singela reflexão, nunca mais me abandonou.

Ainda bem!

fonte imagem: http://acibel.com.br

Horizonte

Por Vitor Seravalli

Não tenho certeza quando aquela mudança de rumos aconteceu. Há bem pouco tempo eu havia assumido uma importante posição de liderança na empresa e ainda estava sob o efeito de um processo, onde um natural deslumbre pelo novo cargo se misturava com o peso absurdo da responsabilidade que ele trazia, gerando uma certa confusão em minha mente. Em alguns momentos, experimentava uma sensação inusitada de poder e em outros, bem mais frequentes, a sensação de que eu não seria capaz de enfrentar aquela avalanche de problemas que se acumulava sobre a minha mesa.

De um jeito ou de outro, acertando e errando, às vezes sendo atrapalhado por uns poucos e em outras vezes recebendo o suporte essencial de muitos outros, eu fui me adaptando. Precisaria muito mais que um livro para contar somente uma parcela de tudo o que vivenciei naquela época. Mas tantas novidades em tão pouco tempo abriram meus horizontes e, quanto mais conhecimentos eu adquiria, um imenso e desconhecido mar de oportunidades se colocava à frente de meus ávidos olhos.

Creio que o primeiro sinal para uma dessas oportunidades veio após a leitura de um livro relacionado com a importância dos valores pessoais, escrito pelo consultor americano Hyrum Smith*. Sua mensagem contextualizou minhas inúmeras dúvidas em um cenário estruturado e de fácil compreensão. Pela primeira vez, enxerguei minha vida pessoal e profissional na forma de um projeto e, a partir daquele momento, uma nova visão se delineou em minha mente.

Tudo continuava igual e complexo em meu cotidiano, porém, eu já conseguia distinguir diferenças claras entre o instante presente e algo bem distante no tempo. Lá no horizonte, eu pude ver a mim mesmo, feliz e realizado.

Confesso que as coisas não eram tão cristalinas como eu gostaria, mas eu já não via meu futuro no mundo corporativo. Sem que eu já houvesse experimentado algo parecido antes, eu me via como um empreendedor. Mas como isso poderia ser possível se, até então, meu único projeto empreendedor havia sido desenvolvido nos tempos da universidade e ele se resumia em concluir minha graduação, receber o merecido diploma e conseguir um bom emprego? Lamentavelmente, tratava-se de um projeto pobre e pequeno.

Tenho o atenuante de que no passado não possuíamos tantas informações quanto as disponíveis aos jovens de hoje para discernir entre uma carreira convencional e um projeto empreendedor, todavia, com razão ou sem ela, isso acabou me custando muito caro posteriormente.

Voltando ao ponto de minha transformação pessoal, fiz um planejamento para dez anos no qual o meu objetivo seria uma atuação plena em desenvolvimento humano, algo que se definiu ao longo do tempo como minha grande paixão profissional, com um pilar coadjuvante já bastante consolidado em atividades relacionadas à sustentabilidade empresarial.

Levei tão a sério aquele meu projeto e seu consequente plano de ação, que o tempo previsto para sua implementação caiu surpreendentemente pela metade. Pois é, cinco anos depois, entrei na sala de meu líder e contei a ele sobre minha decisão de partir para um novo caminho.

Reconheço que a receptividade e o apoio da empresa como um todo foram fundamentais para que tudo corresse bem naquela fase de transição. Simples palavras de agradecimento não são suficientes para materializar minha gratidão.

Vale dizer, que a percepção criada pela repercussão natural de minha mudança foi muito mais positiva do que a realidade, mas creio que isso decorreu do brilho que nunca mais deixou meus olhos a partir de então. Até porque, me apaixonei pelo que passei a fazer e, assim, meu trabalho se transformou em uma de minhas principais opções de lazer.

Evidentemente, isso não significou facilidades econômicas perenes. Pelo contrário, as crises que o país viveu e ainda vive são desafios constantes para minha resiliência. Contudo, acordar todas as manhãs com a mesma energia para enfrentar leões e outras feras e dormir à noite, em paz, com a certeza de ter caminhado na construção de um legado baseado em valores com os quais me identifico, tudo isso não tem preço. Assim, somente tenho ótimos motivos para continuar, não é mesmo?

Por falar nisso, ainda que mal lhe pergunte, qual é mesmo o seu projeto pessoal ou profissional?

* O que mais importa – A importância de viver seus valores – Hyrum Smith /  Consultoria Franklin Covey

Fonte imagem: arquivo pessoal

Proficiência

Por Vitor Seravalli

Tocou o telefone e, quando atendi, logo reconheci a voz animada de meu chefe.

— Guten Tag!

Disse boa tarde em alemão e continuou a conversa querendo testar minha capacidade de compreender e responder naquele idioma que sempre gostei, mas nunca dominei. Apesar disso, pareceu satisfeito, embora seu nível de exigência estivesse uma ordem de grandeza abaixo dos critérios de minha rígida professora de alemão. Em seguida, perguntou se meu passaporte estava em ordem e, quando confirmei positivamente, disse que me inscrevera em um programa de treinamento na cidade de Kaiserslautern na Alemanha. Um programa de dois dias sobre desenvolvimento de pessoas, totalmente em alemão. Ele sabia que seria muito difícil para mim, por isso determinou que eu fizesse um curso intensivo do idioma com um mês de duração, exatamente o tempo que restava até o início do treinamento.

Já terminando a conversa, sugeriu que eu conversasse com um colega de outra área, pois ele já havia participado do mesmo programa no ano anterior e, como também era um estrangeiro não fluente, poderia me dar dicas e informações sobre sua experiência.

Agradeci, desliguei o telefone e, em seguida, disquei para o tal colega. Quando contei a ele para onde iria, o outro lado da linha se transformou em um longo silêncio. Pensei até que a linha tivesse caído, mas ele pigarreou e confessou que sua experiência havia sido, no mínimo, dificílima. Desejou-me boa sorte e recomendou que eu cuidasse com carinho de minha autoestima.

Estou frito! — Pensei comigo.

Fiz tudo o que pude, estudei, pratiquei, até sonhei em alemão e, enfim, viajei. Apesar disso, reconheço que minha participação no tal treinamento foi, no máximo, medíocre. Após essa vivência, tive muitas outras intervenções com colegas e mesmo lideranças germânicas e, entre tropeços e boas evoluções, acredito que ganhei mais que perdi. Enfim, sobrevivi.

Evidentemente, se eu houvesse morado uns tempos por lá, este texto não existiria, mas no embalo desta abordagem, se eu olhar para trás em minha carreira, eu poderia contar várias histórias relacionadas às minhas diversas incursões em outros idiomas não nativos, como inglês e espanhol. Algumas foram inexplicavelmente bem-sucedidas, como por exemplo, ter sido palestrante no idioma espanhol em diferentes países latinos, sem nunca ter assistido sequer a uma única aula básica do idioma. “Madre mía!” Na verdade, aprendi a sobreviver heroicamente graças ao domínio de uma interlíngua – conforme definida em alguns dicionários – conhecida como “portunhol”.

Em uma outra situação, fui duramente repreendido por um simpático colega italiano, porque eu mesclava portunhol com um carregado sotaque da novela brasileira “Terra Nostra”, enquanto conversava animadamente com seus conterrâneos pelas ruas de Milão. Em um determinado momento, ele me puxou pelo braço e disse em tom definitivo:  — Fale normalmente, homem de Deus! Quem disse a você que os italianos falam desse jeito cantado? Se você insistir, eu fingirei que não o conheço, entendeu?

Tive dificuldades para compreender bem a sua repreensão feita em péssimo inglês. Mas admito que mudei imediatamente, pois vi que ela era bem mais clara e correta do que as minhas frases no idioma italiano.

Bem, mas a esta altura de minha vida, não creio que eu ainda tenha a intenção de investir grande energia para aperfeiçoar minha proficiência em outros idiomas, a não ser que alguma oportunidade de trabalho assim o exija. Nesse caso, certamente, eu mergulharei de cabeça. Aliás, ultimamente, tenho até estudado um pouco de italiano, mas somente para poder assistir às óperas de Verdi e Puccini sem depender tanto das legendas em português.

De qualquer modo, uma coisa é certa. Se eu estivesse iniciando minha carreira agora, ou mesmo, estivesse ainda definindo meu futuro profissional, eu investiria pelo menos o suficiente para dominar dois ou três idiomas importantes, obviamente após me sentir competente em relação à minha própria língua portuguesa.

Se fui um sortudo por não depender tanto disso quando iniciei e construí minha carreira, ainda assim, o que conquistei devo também à minha coragem e falta de vergonha em me comunicar mesmo com baixíssimos recursos de gramática e vocabulário em outras línguas.

Atualmente, o domínio de idiomas é o bilhete de entrada para participação em praticamente todas as oportunidades relevantes nas empresas globais, mas muito mais que isso, é a porta de acesso a valiosos conhecimentos, a novos relacionamentos e ao imenso patrimônio cultural disponível nas diversas regiões do mundo. Não temos mais o direito de renunciar a estas oportunidades.

Falando nisso: — Sprichst du Deutsch?

fonte imagem: http://webpinoy.asia

Oportunidade

Por Vitor Seravalli

Já escutei muito sobre a importância de estarmos sempre atentos às oportunidades que surgem à nossa frente. Infelizmente, tenho consciência de ter perdido algumas delas em minha vida pessoal e profissional, mas também levo em minha história, alguns momentos em que pude aproveitá-las. Em alguns casos, desperdicei ingenuamente chances óbvias e, em outros, fui surpreendido positivamente pelo êxito aparentemente improvável.

Em um determinado período, a fase não era das melhores. Nem sei se a causa estava em problemas decorrentes de performance abaixo das expectativas ou outro fator, mas o fato é que impactos gerados por sucessos recentes de um forte concorrente direto diminuíam minha autoconfiança.

Era um fim de tarde como outro qualquer, quando recebi um convite para um evento que envolveria todas as lideranças da empresa. Eu me incluía no grupo mais numeroso, composto pelos líderes de unidades operacionais. Eu era um dos chefes de produção.

E, após tanto tempo, ainda me surpreendo em manter na memória o número total de 144 participantes de todos os níveis naquele encontro, desde a alta direção até a liderança operacional.

O trabalho fora muito bem planejado com dinâmicas realizadas em grupos que se modificavam a cada etapa, com pessoas de níveis e áreas diferentes, para que ideias novas pudessem levar a resultados inovadores para os negócios. O levantamento de questões sobre problemas existentes, a discussão de possíveis alternativas de encaminhamento e, finalmente, a priorização em temas estratégicos se concentraram em 3 grupos de líderes formados por 48 participantes, que seriam responsáveis para desenvolver uma proposta de planos de ação específicos por tema.

O momento mais importante do evento previa a apresentação de um sumário executivo dos três materiais elaborados pelos distintos grupos. Para garantir que isso fosse feito de modo legítimo, cada grupo deveria escolher democraticamente um porta voz para apresentar os resultados a todos ali presentes.

Em um grupo tão forte, alguns profissionais poderiam ser classificados como favoritos prévios, ou por experiências anteriores bem-sucedidas, ou por suas atividades estarem ligadas a processos de comunicação. Lembro-me muito bem que um dos grupos definiu um líder de marketing extremamente comunicativo. O segundo grupo logo escolheu o gerente de comunicação corporativa da empresa. Mas o terceiro grupo demorou um pouco mais e o motivo do atraso era devido à ausência de alternativas óbvias de candidatos para aquela importante tarefa.

Eu acompanhava aquela discussão a uma certa distância e notei que houve uma discussão final, restrita a um grupo de líderes mais influentes, até que o maior nível hierárquico do grupo se aproximou de mim e solenemente informou que eu havia sido o escolhido.

Como dizia a letra de uma música bastante antiga: “não sei o que pensei, mas eu não acreditei”, contudo, sem pensar muito, respirei fundo, fiz uma oração instantânea, e disfarcei minha insegurança pedindo que todos me ajudassem a checar se minha proposta de apresentação atendia às expectativas de todos.

Nunca entendi os motivos de meu comportamento, mas enquanto todos buscavam alguém para representar o grupo no momento final daquela intervenção, eu fiquei todo o tempo em um canto, quietinho, pensando como o resultado deveria ser apresentado.

Assim, de modo surpreendente para muitos que lá estavam, fiz o que tinha a fazer da melhor forma que pude e com ótimo resultado. Para ser sincero, eu mesmo me surpreendi.

Minha vida no dia a dia não se tornou fácil por causa daquele momento positivo, tive mais percalços e novas dificuldades, mas admito que aquela oportunidade tão bem aproveitada abriu caminhos fundamentais para desenvolvimento posterior de minha carreira.

Uma vez, li uma história sobre Kairós, o deus da oportunidade. Descrito como um jovem calvo com uma trança de cabelos em sua testa, só era possível de ser alcançado, se agarrado pelo topete, ou seja, quando encarado de frente. Depois que ele passasse, não seria mais possível pegá-lo novamente.

Experiência vivida, lição aprendida.

fonte imagem: http://eventosmitologiagrega.blogspot.com.br/

Ocupado

Por Vitor Seravalli

No início de minha vida executiva, quando eu precisava de algum trabalho com maior demanda de tempo e empenho, meu impulso inicial era procurar por alguém que estivesse com maior disponibilidade. Algo aparentemente óbvio, mas que poucas vezes trouxe resultados satisfatórios.

Aos poucos fui aprendendo que meu critério lógico não funcionava na prática. Surpreendentemente, as melhores delegações ocorriam quando alguém aparentemente atribulado assumia a responsabilidade e, como dizíamos na época, “dava conta do recado”.

Excepcionalmente, a sinergia entre tarefas distintas, quando caem nas mesmas mãos, pode torná-las mais simples. Parece impossível, mas lembro-me de um período em que eu era responsável por uma área de infraestrutura e quando recebi de presente a enorme responsabilidade de cuidar de toda a área de produção, minha vida melhorou substancialmente. Afinal, ficou muito mais fácil, integrar recursos e necessidades estruturais, além de ganhar o reforço de profissionais que se somaram aos que já pertenciam ao nosso time.

Realmente, tive sorte naquela oportunidade. Mas a inspiração deste texto não se relaciona com estas exceções surpreendentes e desejáveis.

Meu objetivo aqui é contar um pouco sobre a importância de identificarmos pessoas, cujos comportamentos fazem com que vontade, motivação, simplicidade e inovação, componham uma competência capaz de produzir resultados que os profissionais comuns consideram impossíveis. Reconhecê-los em meio a tantos perfis somente é possível quando suas atitudes de materializam em tarefas e projetos concluídos com sucesso.

Tive um colega que possuía esta capacidade. Dificilmente, o que lhe era delegado não alcançava o êxito. Porém, sua primeira reação quando tomava conhecimento de novos desafios era sempre negativa.

Uma expressão de súbito mal humor, sempre com justificativas insanas de que a ação não seria bem-sucedida, gerava um ambiente negativo e desanimador para toda a equipe. Contudo, sua atitude posterior se transformava em uma enorme contradição. Ele entrava em ação com a competência que lhe era peculiar e os problemas raramente não encontravam uma solução adequada.

Infelizmente, meu colega nunca alcançou posições mais importantes na organização, pois a percepção de pessimismo, não abertura às mudanças e de que gostava de reclamar, transformam-se em um estigma negativo. Realmente, uma pena.

Evidentemente, devemos ter um posicionamento assertivo e bem argumentado, quando não concordamos com o que nos é proposto ou quando estamos no limite de nossa capacidade. Todavia, precisamos discernir quando novas responsabilidades possam ser equacionadas, principalmente se forem importantes para nossas equipes, nossos negócios e, finalmente, nossas carreiras.

No final das contas, minhas vivências validaram uma frase pronta que ouvi certa vez e que a cada dia torna-se ainda mais verdadeira:

“Se você quiser que algo importante seja realizado com qualidade e no prazo desejado, procure alguém ocupado para fazê-lo”.

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