Ocupado

Por Vitor Seravalli

No início de minha vida executiva, quando eu precisava de algum trabalho com maior demanda de tempo e empenho, meu impulso inicial era procurar por alguém que estivesse com maior disponibilidade. Algo aparentemente óbvio, mas que poucas vezes trouxe resultados satisfatórios.

Aos poucos fui aprendendo que meu critério lógico não funcionava na prática. Surpreendentemente, as melhores delegações ocorriam quando alguém aparentemente atribulado assumia a responsabilidade e, como dizíamos na época, “dava conta do recado”.

Excepcionalmente, a sinergia entre tarefas distintas, quando caem nas mesmas mãos, pode torná-las mais simples. Parece impossível, mas lembro-me de um período em que eu era responsável por uma área de infraestrutura e quando recebi de presente a enorme responsabilidade de cuidar de toda a área de produção, minha vida melhorou substancialmente. Afinal, ficou muito mais fácil, integrar recursos e necessidades estruturais, além de ganhar o reforço de profissionais que se somaram aos que já pertenciam ao nosso time.

Realmente, tive sorte naquela oportunidade. Mas a inspiração deste texto não se relaciona com estas exceções surpreendentes e desejáveis.

Meu objetivo aqui é contar um pouco sobre a importância de identificarmos pessoas, cujos comportamentos fazem com que vontade, motivação, simplicidade e inovação, componham uma competência capaz de produzir resultados que os profissionais comuns consideram impossíveis. Reconhecê-los em meio a tantos perfis somente é possível quando suas atitudes de materializam em tarefas e projetos concluídos com sucesso.

Tive um colega que possuía esta capacidade. Dificilmente, o que lhe era delegado não alcançava o êxito. Porém, sua primeira reação quando tomava conhecimento de novos desafios era sempre negativa.

Uma expressão de súbito mal humor, sempre com justificativas insanas de que a ação não seria bem-sucedida, gerava um ambiente negativo e desanimador para toda a equipe. Contudo, sua atitude posterior se transformava em uma enorme contradição. Ele entrava em ação com a competência que lhe era peculiar e os problemas raramente não encontravam uma solução adequada.

Infelizmente, meu colega nunca alcançou posições mais importantes na organização, pois a percepção de pessimismo, não abertura às mudanças e de que gostava de reclamar, transformam-se em um estigma negativo. Realmente, uma pena.

Evidentemente, devemos ter um posicionamento assertivo e bem argumentado, quando não concordamos com o que nos é proposto ou quando estamos no limite de nossa capacidade. Todavia, precisamos discernir quando novas responsabilidades possam ser equacionadas, principalmente se forem importantes para nossas equipes, nossos negócios e, finalmente, nossas carreiras.

No final das contas, minhas vivências validaram uma frase pronta que ouvi certa vez e que a cada dia torna-se ainda mais verdadeira:

“Se você quiser que algo importante seja realizado com qualidade e no prazo desejado, procure alguém ocupado para fazê-lo”.

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A fritura

Por Vitor Seravalli

Um dos chefes que tive durante minha carreira apreciava liderar com o uso deliberado das crises. Hoje em dia, liderar em meio a crises é o óbvio, mas ele agia assim com suas equipes por mera opção pessoal.

Se alguma de suas áreas de responsabilidade aparentasse estar em um ambiente de harmonia, isso o incomodava. Imediatamente, ele se aproximava e, como o mundo corporativo é repleto de oportunidades de melhoria, logo identificava algum problema. Daí para frente, ele posicionava sua eficaz lupa no ponto mais crítico e pronto! Era uma correria para todos os lados.

Sobrava pressão, estresse, pânico e, lamentavelmente, os menos resilientes sucumbiam.

Não concordo com esse modelo de gestão e creio ser praticamente impossível considerá-lo adequado nos tempos atuais, mas admito que, pelo menos em uma importante oportunidade, sua atitude foi transformadora em meu perfil.

Desde o princípio de minha carreira, eu usei e abusei da empatia, ou como alguns generosos colegas diziam, da minha inteligência emocional. Resolução de conflitos, desenvolvimento de relacionamentos, intervenções com profissionais de diferentes níveis, enfim, eu era mesmo muito bom em lidar com situações onde não houvesse confronto.

Foi quando o tal chefe notou o meu “indesejável” comportamento. Logo, o azeite foi para a frigideira, a frigideira foi para o fogo, e percebi que queriam me jogar para dentro dela.

Para catalisar esse processo de fritura, eu tinha um rival. Competente, inteligente e bem mais experiente que eu, esse meu colega percebeu que meu momento era de fragilidade. Em diversas situações, minha posição hierarquicamente superior passou a ser desafiada por ele e, certamente, eu não poderia aceitar aquela situação.

Contudo, eu não estava preparado para aquela inevitável necessidade de mudança e a temperatura na frigideira continuava a subir. Até que em uma situação imprevista, onde diversas pessoas serviam como testemunhas, o confronto inevitável ocorreu.

Todos os presentes já imaginavam um final ruim para mim. A iminente fritura iria realmente acontecer.

Não sei se por um irracional instinto de sobrevivência, ou se pela ajuda fundamental de minha intuição, eu mesmo me surpreendi com o que fiz. Do jeito que pude, o enfrentei e, embora eu não me lembre disso, disseram que terminei a conversa com um forte tapa na mesa.

A discussão se encerrou bruscamente e eu voltei ao meu escritório sem olhar para trás.

Já no caminho, um juiz dentro de mim me julgava imprudente, me sentenciava culpado e me condenava a um inevitável mergulho no azeite quente pela minha atitude imprevista e surpreendente.

Alguns passos depois, ele ainda exigiu que eu voltasse à sala e que me desculpasse, sob a única condição para que tudo voltasse ao normal, como se aquele estado indicasse normalidade.

Não sei o porquê, mas o fato é que não voltei. Fiquei isolado em meu escritório e admito que a noite que se seguiu não foi de sono bom.

No dia seguinte, logo pela manhã, fui chamado pela assistente do meu superior. Pediu que eu fosse com urgência até ele. Pensei comigo: — Acho que perdi.

Inseguro, mas satisfeito comigo e consciente de que deveria ter sido sempre assim, cheguei ao seu escritório. Logo que entrei, ele mudou radicalmente sua expressão. Pois é, ele estava sério e quando me viu, não resistiu e, aproximando-se de mim, sorriu.

Olhou-me de frente e, para minha completa surpresa, disse que já estava sabendo do que eu havia feito. E, aparentemente feliz, me parabenizou.

Um acontecimento mínimo, mas que descartou o azeite ainda quente e guardou a frigideira, pelo menos por mais algum tempo.

Se o azeite não me fritou, o calor certamente me mostrou que a incompetência em lidar com posicionamentos racionais necessários e impopulares estava prejudicando a minha carreira. Assim, depois desse episódio, nunca mais fui o mesmo. Ainda bem!

Obviamente, muitas outras frituras vieram. Mas, como podem perceber, eu ainda estou aqui.

fonte imagem: http://exame.abril.com.br/

Não

Por Vitor Seravalli

Era o início de minha carreira e não faltava energia e vontade para conquistar espaço na empresa que havia me contratado. Pelo contrário, eu queria mostrar a todos que o investimento em mim teria retorno certo em prazo bem curto, por isso, tarefas de todos os tipos caiam sobre minha mesa e eu ainda não possuía outra resposta, senão o espontâneo “sim”.

Evidentemente, fui conquistando novas responsabilidades e um certo reconhecimento, até porque meus pares não pareciam estar na mesma frequência. Às vezes, eu chegava à exaustão, mas minha escolha pela prontidão irrestrita já estava gravada em minha mente e evidenciava resultados positivos.

O tempo passou e em algum momento dessa trajetória, tornei-me o líder de um pequeno setor da organização. Eu estava plenamente consciente de que o sucesso alcançado até aquele momento havia sido consequência de algumas características e resultados, mas principalmente, pela disposição em atender a todas as solicitações possíveis.

Porém, logo depois percebi que essa atitude passou a custar muito e o impacto chegou a um estágio em que me tornei incapaz de resolver meus próprios problemas, ou seja, eu estava com tantas pendências de terceiros, que não sobrava tempo, tampouco capacidade, para sanar minhas próprias pendências e alcançar os resultados que estavam bem claros em meus objetivos e compromissos.

Uma pequena crise existencial de incompetência me invadiu e atingiu o centro de minha autoestima. Até então, mesmo com algumas inimizades, desdém e inveja de alguns colegas, eu seguia firme com minha excessiva e desnecessária vontade de agradar a todos, todavia, tornava-se urgente a interrupção de tamanha disponibilidade.

Além do mais, muitas das tarefas que integravam meu pacote de benevolências não eram importantes, aliás, muitas delas eram pedidos tolos e inúteis de pares ou mesmo de superiores.

Quando eu já sentia os primeiros sintomas de um inexplicável pânico por não dar conta de meu trabalho, vi que a principal falha não estava em meus problemas não resolvidos. O ponto crítico estava em minha enorme dificuldade de dizer: “não”.

Nem preciso detalhar a dimensão da dificuldade que tive ao enfrentar a primeira entre tantas mudanças de comportamento que ocorreram em minha carreira.

Ainda hoje, sinto certo incômodo em decepcionar meus interlocutores quando, após avaliar qualquer demanda, concluo pela impossibilidade de executá-la e, com a melhor das argumentações, balanço negativamente com a cabeça.

Tenho conversado com muitos profissionais nos últimos tempos e, quase sem exceção, eles confessam dificuldades em dar contar de suas inúmeras tarefas por estarem sobrecarregados com excesso de pendências, as quais nem eles mesmos sabem porque as aceitaram.

Por isso, essa é uma lição básica a ser aprendida com a máxima prioridade. Um exercício básico para os jovens e uma mudança necessária e urgente para aqueles, que como eu, se deixaram levar pela inútil escolha em aceitar quaisquer demandas.

Mas, cuidado! Não sejamos simplistas quando optarmos pela resposta negativa.

Uma análise criteriosa, sempre baseada em prioridades reais, recursos necessários e disponíveis, valor agregado, impacto e, principalmente, na origem da solicitação, será essencial para que sigamos em frente e que o guardião do sucesso em algum tempo no futuro, nunca seja obrigado a nos dizer: “Não”.

fonte imagem: visaocidade.com.br

Webinar: Desafios da Construção Sustentável & ODS

A Seravalli, em parceria com a StraubJunqueira, fará um Webinar sobre os desafios da construção sustentável e os ODS.

O webinar será no dia 12/07, às 14h.

Faça sua inscrição e garanta já a sua presença! Próximo ao evento você irá receber no e-mail cadastrado o link de acesso ao vivo. A palestra tem duração prevista de 45min e mais uma rodada de perguntas de 15min.

Incrições em: goo.gl/V5vzFQ

 

O preguiçoso

Por Vitor Seravalli

Eu experimentava meu lado institucional e aquilo era algo diferente para mim. Papéis institucionais são assim, você trabalha com dedicação e a maior recompensa é o prazer da realização. Porém, embora não existam metas concretas de compensação financeira, desenvolver uma rede de contatos relevante, usar a experiência e o conhecimento para ajudar os outros, enfim, compartilhar deliberadamente o que se sabe, é algo que pode gerar ganhos em todas as dimensões, pois é fundamental que seja viável para que tenha sustentabilidade. De qualquer modo, acredito que todos deveriam experimentar estes tipos de vivência em algum momento.

É certo que essa possibilidade está mais acessível aos profissionais mais experientes, aqueles que estão na fase da vida em que a autorrealização é mais do que uma meta, é uma forma de viver. Eu ainda estava bem longe dessa etapa de minha carreira, contudo iniciei-me no trabalho institucional com o foco claro de ampliar minha rede de relacionamentos. Precisava disso para viabilizar meu projeto empreendedor e, como contrapartida, estava aberto e motivado para contribuir.

Por decisão pessoal, eu deixara a vida corporativa por esse projeto, e ainda não tinha muita noção se a troca teria viabilidade no médio e longo prazo, mas seguia em frente com determinação. A empresa em que eu trabalhava colaborou efetivamente e em pouco tempo eu já ocupava uma posição interessante em uma organização representativa no âmbito empresarial de minha região.

Em frente a tantas novidades boas, alguns detalhes no mínimo pitorescos chamavam minha atenção, por exemplo, muitos de seus diretores gostavam, ou melhor, faziam questão de serem chamados de “Doutor”, muitas vezes sem sequer terem concluído uma graduação qualquer. Confesso que nunca compreendi aquela necessidade.

Nesse contexto, por motivos óbvios, pedi que minha assistente, uma profissional com bastante tempo de casa e experiência, me chamasse pelo primeiro nome, simples assim. Ela prontamente respondeu: ­_Pois não, “Doutor”!

Quando insisti, ela me pediu desculpas antecipadas, mas disse que se suas colegas a vissem me chamando informalmente pelo meu nome, a reprovariam e a julgariam de modo errado. Assim, não mudou o tratamento em lugares públicos. Felizmente, mudou quando não havia ninguém por perto.

Após tanto tempo, ainda mantenho vínculo com esta organização que, cada vez mais, mostra-se importante para seus públicos de interesse. Com certeza, aprendi muito com ela e vivenciei diversas histórias memoráveis.

Por exemplo, nunca me esquecerei de um episódio em que discutíamos em reunião de diretoria a importância da transparência e da verdade nos relacionamentos pessoais e organizacionais. Alguns questionavam se em alguns momentos não seria bom, omitirmos a verdade plena. Argumentavam com palavras frágeis e se faziam valer até mesmo de analogias às mentiras que contamos aos nossos filhos, sob a justificativa de que ainda não estão preparados para compreender certas verdades que somente os adultos aceitam, muitas vezes por falta de sensibilidade ou pura ignorância.

A conversa estava animada e havia sido provocada por uma situação empresarial em que o dono de uma empresa omitiu informação crítica de seus funcionários para que a produção não parasse, o que causaria uma interrupção de fornecimento primordial para as finanças da empresa. O argumento era forte e se baseava numa consequência potencial possível caso algo desse errado: a empresa teria que demitir pessoas. No final das contas, seria uma omissão ou mentira por uma boa causa. Em outras palavras, um dilema comum nos dias de hoje para aqueles que se envolvem com gestão de negócios.

Até que em um determinado momento, nosso líder, uma pessoa de sólidos valores e com personalidade forte, afirmou em alto e bom som que não mentia nunca. Todos riram da forma absolutamente sincera que se expressou. O fato é que todos sabiam que ele sempre falava mesmo a verdade, doesse a quem doesse, mas um dos colegas o desafiou perguntando o motivo de tanta convicção em não mentir em nenhuma situação.

Nunca mais me esqueci de sua resposta. Sei que não era inédita, mas fui incapaz de evitar um sorriso espontâneo quando ele, em um momento de rara descontração, confessou que não mentia, unicamente por um decisivo motivo: era um irrecuperável preguiçoso.

E, segundo ele, um mentiroso não pode em hipótese alguma ser preguiçoso, principalmente pela necessidade constante de contar sempre a mesma versão dos fatos, sob o risco de ser desmascarado caso seja, por um segundo, displicente com sua memória.

Todos riram do seu jeito debochado em qualificar ironicamente os bons mentirosos.

Confesso que não concordava com a forma aparentemente insensível com que tratava certas situações muitas vezes simples, mas sempre o admirei pela sinceridade, pela lealdade como valorizava as coisas certas, pelo respeito aos seus valores éticos e pela forma singular como conseguiu incorporar, em si próprio, um defeito que deveras não teve em sequer um momento de sua vida, a preguiça.

fonte imagem: www.targetcomunica.com.br

Nos arredores de Paris

Por Vitor Seravalli

José estava bastante animado. Afinal, estava às vésperas de uma viagem internacional e viajar para longe é sempre muito bom, pelo menos para a maioria das pessoas. Embora fosse uma viagem profissional, iria para um lugar onde nunca havia estado antes, então queria aproveitar cada momento dessa nova experiência.

Entrou em minha sala para explicar seus objetivos e foi logo contando que havia sido convidado para participar de um encontro global de diversos profissionais de sua área de atuação e, como era um representante regional do tema, poderia compartilhar suas experiências e aprender um pouco com seus colegas também.

Fiz algumas perguntas por pura curiosidade, pois minha aprovação era desnecessária. A excelente oportunidade de divulgação do nosso trabalho na região já seria mais que suficiente para justificar a viagem e o investimento decorrente da mesma.

Quando me contou que o evento seria na França, quis saber alguns detalhes e ele me disse que seria numa pequena cidade nos arredores de Paris, chamada Chantilly. Ele viajaria numa sexta-feira e, do Aeroporto Charles de Gaulle, tomaria um taxi que o levaria diretamente ao hotel onde o encontro se realizaria a partir da segunda-feira pela manhã. Garantiu aliviado que teria tempo suficiente para se recuperar da mudança de fuso horário.

Ele mencionou que, em Chantilly, talvez pudesse visitar um magnífico castelo com o mesmo nome, onde ocorrera o casamento de um casal bastante badalado de celebridades brasileiras há algum tempo atrás, aliás, desfeito logo depois.

José estava animado em visitar a França e também por poder interagir um pouco com a cultura local. Perguntei quando estaria de volta e ele me disse que o evento duraria três dias e que na quarta-feira à noite já tomaria seu voo de volta ao Brasil.

Definitivamente, uma viagem bastante rápida, mas mesmo assim, ele estava radiante. Perguntei também se ele já conhecia Paris, afinal estaria tão perto, e qual não foi minha surpresa quando ele confessou nunca ter estado lá.

Não me contive e o questionei o motivo de não permanecer a noite de sábado e o domingo todo em Paris, indo para Chantilly à noite, visto que a reunião se iniciaria somente na segunda cedo. Sua expressão foi de surpresa, como se minha consulta fosse ilegal. Após uma pausa, olhou para mim meio sem graça e eu disse que não haveria qualquer problema, pois como iria mesmo dormir em algum lugar, que fosse então em Paris. Por que não?

Estou certo que José entendeu aquilo como um presente, mas na verdade, foi apenas um oportuno investimento cultural em um competente colega que simplesmente o merecia. Não me lembro de muitos detalhes posteriores à viagem de José, mas sei que foi uma ótima viagem tanto no âmbito profissional quanto pessoal.

As viagens a trabalho, além de eventos profissionais importantes, são oportunidades únicas para incorporação de um conhecimento pessoal que amplia nossa visão sistêmica, desenvolve nossa capacidade de adaptação em novos ambientes e expande nossa empatia pelo contato com novas e interessantes pessoas. E todas são competências que usamos muito durante toda a nossa carreira.

Felizmente, pude repetir a mesma ação mais vezes com outros membros de minha equipe. Não disse a eles, mas em cada caso, eu meramente replicava algo que um de meus líderes me ensinou quando fez o mesmo comigo em algum momento do passado.

Mais que um presente ou um investimento, foi mesmo um belo ensinamento que me regozijo por ter compartilhado.

Fonte imagem: http://www.parisattitude.com

Orientação para resultados

Por Vitor Seravalli

Puxa! Mas ele era tão esforçado!

Realmente, Tilson vestia a camisa, como é comum nos referirmos às pessoas que não medem a quantidade de energia dispendida e dedicação pessoal em seu trabalho. Mas infelizmente, ele acabara de ser demitido.

Não houve sequer um local da empresa onde não se escutassem críticas e lamentos à aparente injustiça ocorrida lá no almoxarifado, um espaço que parecia pertencer àquele lapidado exemplo de gente boa.

Ele não havia optado por uma evolução nos estudos, pois achava que suas responsabilidades exigiam somente muita dedicação, responsabilidade e não precisavam de qualquer teoria. Aliás, ele vivia repetindo isso aos novatos que chegavam ao seu setor. Era espirituoso e muito bem-humorado, então todos sempre pensavam que ele dizia aquilo por brincadeira. Contudo, ele falava sério.

Gostava de trabalhar em horário extraordinário, pois aumentava a quantidade de dígitos em seu holerite no final do mês. Tinha orgulho em evidenciar seu compromisso com a empresa e sorria quando era repreendido por seu supervisor, sempre que sua dedicação exagerada ultrapassava as regras da empresa.

Não tinha noção dos indicadores que sua área buscava durante o mês e, menos ainda, quais eram os resultados mais prioritários de seu negócio. Aliás, qual era mesmo o seu negócio?

Essas coisas incompreensíveis integravam as responsabilidades de seu chefe, de seu gerente, de seu diretor e não dele. Tilson acreditava ter outras coisas mais importantes para fazer.

O tempo foi passando e numa tarde de sexta-feira, foi surpreendido com uma inesperada demissão.

Tilson havia sido avisado que sua performance estava abaixo do mínimo esperado, mas ele compensava os feedbacks negativos com muito, muito esforço e sua já peculiar entrega pessoal.

O que Tilson não sabia é que lhe faltava algo fundamental nos dias de hoje: a orientação para resultados.

Isto não significa dizer que dedicação, esforço e compromisso não sejam importantes. Eles são pré-requisitos essenciais, mas são insuficientes e frágeis quando não acompanhados por resultados previamente planejados, definidos e baseados em valores e princípios éticos.

Infelizmente, como escutei certa vez, a única pessoa que consegue perceber e, eventualmente reconhecer o esforço de alguém por si só é o seu superior imediato. Ninguém mais.

Aliás, quando alguém exagera em sua dedicação a partir de um determinado momento, logo seus superiores desconfiam e normalmente descobrem que a mudança ocorreu após uma falha importante ou um insucesso que busca de compensação pelo esforço.

Soube também de Meila, uma assistente executiva que atendia a três diretores de uma empresa e que, para conseguir dar conta de seu trabalho, permanecia todos os dias por duas horas a mais e ainda estendia sua jornada de trabalho semanal, também de modo extraordinário, às manhãs dos sábados.

Com tanta dedicação, nenhum dos diretores a questionava.

Num determinado momento, Meila engravidou e, durante uma conversa com seus chefes, informou que estava preocupada com os impactos que seu período de licença maternidade traria ao atendimento de seus ocupados chefes. Disse a eles que buscaria uma profissional temporária, cuja jornada pudesse ser rigorosamente cumprida pela mesma. Todos acharam que esse seria um grande desafio, tamanha era sua dedicação, mas aceitaram.

O processo de seleção foi complicado e também demorado, mas foi encontrada uma jovem profissional com ótimo perfil, a Silvia, que embora desconfiada, aceitou a jornada estendida.

O tempo foi passando e Silvia respeitou o acordo sem qualquer falha. Todavia, em uma certa manhã, pediu uma conversa rápida com seus três superiores.

Foi logo ao ponto e disse que estava gostando de seu trabalho na empresa, mas achava que a jornada extra lhe parecia desnecessária. Os três chefes se entreolharam desconfiados, contudo aceitaram que fosse feito um teste durante uma semana, na qual ela cumpriria jornada normal, inclusive, eliminando sua vinda aos sábados.

Na sexta-feira seguinte, Meila apareceu de surpresa na empresa, pois já estava informada que sua substituta estava descumprindo o que fora combinado. Foi logo se desculpando com os diretores e disse que buscaria uma solução mesmo estando afastada.

Um dos três executivos a interrompeu e recomendou com simpatia que ela ficasse tranquila e voltasse para casa. Naquele momento, seu filho precisava dela, eles não.

Mudanças de processo nos arquivos, na gestão de agenda, e muitas outras formas de trabalho simples e modernas haviam sido implantadas e as coisas, seguiam bem sob o comando da organizada e competente Silvia. Então, Meila retomou sua licença maternidade, agora com uma pequena e incômoda “pulga atrás da orelha”, como ela mesma comentou com suas outras colegas antes de voltar para casa.

O final desta história é previsível, mas o pequeno grupo de executivos pode constatar na prática que sua nova assistente era competente em diversos aspectos, mas principalmente em sua orientação para resultados. E preferiram continuar com ela.

Felizmente, Meila pode ser realocada dentro da mesma empresa, pelo menos até que decidisse mudar de emprego por conta própria. Depois, em sua nova posição bem longe dali, nunca mais acreditou em reconhecimento que não estivesse baseado em um desempenho superior e evidenciado pela superação de metas e resultados concretos e consistentes. Tilson também não.

fonte imagem: http://www.comportese.com

 

Adaptação cultural

Por Vitor Seravalli

Ele acabara de chegar. Meu novo chefe ainda arrumava suas coisas no novo escritório, mas logo pela manhã pegou o telefone e pediu que eu fosse até lá.

Todos estavam bem impressionados com seu jeito de líder motivado. Ele realmente queria evoluir profissionalmente nessa sua nova fase e, definitivamente, parecia não ter medo do trabalho. Era um típico alemão bem-humorado e, logo que entrei, foi logo perguntando em esforçado português se eu gostava de futebol. Quando acenei positivamente com a cabeça, quis saber se haveria alguma partida nos próximos dias, pois queria assistir. Na Alemanha, era um torcedor do Schalke04, um clube de sua região, mas gostaria de escolher uma equipe para torcer aqui também.

Fomos a um jogo de meu time, mas depois ele viu também outras opções e acabou escolhendo justamente uma agremiação rival à minha. Sem problemas.

O que mais chamou-me a atenção foi sua atitude deliberada de se adaptar em diversas perspectivas ao país, que seria sua casa por pelo menos quatro anos. Adorava uma picanha fatiada, curtia e cantava músicas brasileiras como se fosse um brasileiro, enfim, muitos anos depois, ainda me lembro da conexão que criou conosco.

Em outro momento, chegou mais um novo colega, também da Alemanha.

Falando alemão nativo, perguntou sobre locais preferidos por comunidades alemãs em São Paulo. Visitou bairros e condomínios fechados na cidade onde expatriados se juntavam para que pudessem conviver, principalmente nos finais de semana. Quis saber se os jogos de futebol da Bundesliga, o campeonato alemão, eram transmitidos aqui, pois ele não poderia perder contato com seu Bayern de Munique.

No final das contas, o tempo passou e ele mal aprendeu a se comunicar em português. De qualquer modo, se deu melhor que sua esposa. Ela, em nenhum momento, se interessou em conhecer algo sobre o Brasil.

Dois casos reais e completamente opostos em relação às escolhas, atitudes e comportamentos fizeram-me refletir sobre mim mesmo.

Lembro-me de momentos no início de minha carreira em que evitava contatos, além dos obrigatórios, com visitantes do exterior. Sim, havia a deficiência do idioma, mas o grande limitante não estava nisso, e sim em minha tola opção por não vivenciar, experimentar e desfrutar das diversas culturas que se aproximavam.

Felizmente, tudo mudou quando me tornei um visitante. Durante uma estadia mais longa fora de meu país, fui surpreendido pela forma com que alguns colegas me trataram. Não foram muitos, contudo nunca me esquecerei daqueles que cuidaram de mim com um prazer inusitado. Levaram-me para jantar em suas casas com suas famílias. Descobriram que eu apreciava museus e me levaram a alguns deles confessando que os visitavam pela primeira vez, somente por minha causa. Descobriram que eu gostava de óperas e, por não se imaginarem em uma, me presentearam com um ingresso em local privilegiado.

Enfim, quando voltei para casa, vi que havia compreendido o real significado da palavra gentileza. Vale aqui o lugar comum: antes tarde do que nunca.

Obviamente, após esse episódio, cuidei melhor de meus colegas visitantes, porém, este não foi o maior ganho proporcionado por esta experiência. A grande mudança aconteceu com minhas escolhas. A partir de então, passei a valorizar cada vez mais a opção de conhecer novas pessoas, novos hábitos, novos modos de ver a vida e, principalmente, novas culturas.

Soube de uma história maluca sobre um jogador de futebol que fechou um contrato milionário com uma equipe da Espanha e, após apenas três meses, decidiu voltar ao Brasil porque sentia muita falta de feijoada e samba. Não tenho nada contra ambas riquezas nacionais de meu país, muito pelo contrário, mas o tal craque não tem a menor ideia do que perdeu.

O fato é que somos assim. Temos medo da mudança e não gostamos de sair da situação de conforto. Talvez esta seja uma peça frágil de nossa cultura.

Escutei também que, em certa empresa, uma garota promovida para uma melhor função havia mudado de setor, mas mantinha o hábito de almoçar todos os dias com seus antigos colegas. Nada de errado com isso, mas será que não seria interessante para sua adaptação conviver um pouco mais com seu novo time?

No mesmo contexto, algo já corriqueiro no ambiente corporativo é a situação onde uma empresa adquire uma outra. Com isso, os profissionais da empresa incorporada sabem que a chance de perderem espaço é sempre maior. Entre eles, há os que se conformam, se escondem ou deixam a organização. Porém, há outros que se adaptam rapidamente, mostram seus talentos e competências e crescem como se esperassem pela mudança como oportunidade de crescimento.

Enfim, acredito que a busca deliberada pela adaptação identifica a incorporação de uma competência extremamente atual. Além de nossa competitividade no ambiente profissional, ela amplia nossos horizontes e contribui para que nos tornemos a melhor pessoa que possamos chegar a ser.

Comunicação

Por Vitor Seravalli

O toque do telefone àquela hora da tarde indicava algo não previsto em minha agenda. Afinal, o dia fora carregado o suficiente de problemas comuns, reuniões intermináveis e eu já estava concentrado no planejamento do dia seguinte. Atendi diretamente e Letícia, nossa competente assessora de imprensa, com uma voz suave demais e com certa hesitação perguntou-me se eu poderia participar de um programa de televisão regional ainda naquela noite.

Até então, em minhas atividades como gestor industrial, eu nunca estivera envolvido em algo similar. Às vezes, uma entrevista para o jornal da região, outras intervenções nos veículos de comunicação internos da empresa, mas uma aparição na TV seria grande novidade para mim.

Assim, embora estivesse cansado, aceitei o convite. O programa se iniciaria às nove horas da noite no Canal UHF 45, no município vizinho de onde nossa fábrica se situava.

Seguimos para o local com algum tempo de sobra para que ela pudesse me orientar sobre o programa que se chamava ABC Brasil, no qual eu e mais três profissionais da região seríamos entrevistados por seu apresentador.

Confessei a Letícia que eu nunca havia assistido um programa sequer daquela emissora e, sem que pudesse evitar, perguntei o que ela pretendia de fato ao me fazer participar de uma intervenção que ninguém no universo iria assistir. Perguntei com respeitosa dúvida, pois eu sabia das qualidades e da seriedade de minha colega.

Com toda a paciência do mundo, ela começou dizendo que, apesar de meu desconhecimento, o canal tinha boa audiência regional e que seria uma ótima oportunidade para apresentarmos algo sobre a empresa para um público relevante e que incluía a comunidade de seu entorno.

Em seguida, foi direta, e disse que seria também um treinamento de comunicação em uma situação real. Eu poderia experimentar um ambiente de exposição praticamente sem riscos e, segundo ela, isso poderia ser muito importante para mim no futuro. Concordei com Letícia e comecei a gostar da ideia de estar ao vivo na televisão, mesmo que ninguém estivesse assistindo.

Apesar de todas as evidências, eu ainda continuava incrédulo.

A princípio, imaginei que minha intervenção fosse curta e rápida, mas como havia mais participantes, aliás muito bons, acabei permanecendo no ar por quase duas horas. Incrivelmente, conheci pessoas que se tornaram companheiros de muitas jornadas até os dias atuais e, no final das contas, tudo foi extremamente positivo.

Sei que errei muito, mas acertei também, e Letícia fez questão de registrar tudo com comentários extremamente profissionais e didáticos enquanto tomávamos o caminho de volta.

Cheguei em casa e constatei que, pelo menos em algum lugar, a TV estava sintonizada no tal canal 45.

No dia seguinte, várias pessoas contaram que haviam assistido a entrevista. Fiquei surpreso, mas logo me explicaram que estavam em suas casas curtindo a programação televisiva e, quando mudavam de canal, davam de cara comigo falando e aí passavam a me acompanhar.

Gostei da experiencia e decidi buscar novas participações também em outras mídias, além de investir um pouco mais na elaboração de textos e rascunhos de artigos. Enfim, percebi que se eu desenvolvesse alguma competência em comunicação, isso poderia me ajudar, e muito, em minhas atividades.

Graças ao convite e aos bons argumentos de minha valiosa colega, percebi em boa hora a importância que aquele simples exercício significou para mim.

Não vou me aprofundar no detalhamento das inúmeras situações onde fui radicalmente exigido posteriormente, exatamente nos atributos que adquiri praticando a comunicação corporativa em momentos que não possuíam qualquer impacto.

Em algumas dessas situações específicas e bastante críticas, eu sabia que estava com a reputação da própria empresa em minhas mãos e, felizmente, não me lembro de ter decepcionado. Obviamente, tive sempre a sorte e o privilégio de estar muito bem assessorado, mas a valorização da empatia e simpatia com meus interlocutores, a opção deliberada por uma preparação sempre séria e meticulosa e uma certa capacidade de mentalização antes das intervenções, foram fatores de sucesso inquestionáveis para a carreira que pude construir.

Agora peço licença, pois quero compartilhar imediatamente este texto que acabo de escrever. Não estou certo se ele tem a qualidade que eu gostaria que realmente tivesse, mas acredito que sua mensagem com doses adequadas de transparência, credibilidade, ética, assertividade e simplicidade poderão ser úteis para todos aqueles que, assim como eu, valorizam os caminhos da liderança.

Fonte imagem: http://toquedeareia.com.br

A entrevista

Por Vitor Seravalli

Embora eu estivesse bastante ansioso, minha intuição já havia revelado, de forma serena e surpreendentemente segura, que minha vida profissional estava prestes a se iniciar.

Eu já não era tão jovem, mas a oportunidade conquistada de estudar em uma universidade pública fora uma grande aposta em mim mesmo. E agora, eu teria o desafio de transformar aquele enorme investimento de meus pais em resultados tangíveis.

Eu não possuía qualquer experiência que justificasse a aposta de alguma empresa em meu potencial, mas eu queria uma chance e, finalmente, a sentia bem perto.

Iniciar a busca de um primeiro emprego em uma época onde não existia a internet, onde os currículos eram datilografados um a um e entregues em mãos nas portarias das empresas, enfim, tudo aquilo se traduzia como grande desafio.

Além disso, restavam somente os magros cadernos de empregos dos jornais de fim de semana, típicos dos tempos de vacas magras, ou seja, o mercado de trabalho vivia mais uma de suas crises.

Havia um otimismo aparentemente sem motivo em torno de mim e, naquela manhã de domingo, vi um anúncio como outro qualquer, que oferecia uma posição de “Assistente de Diretoria de Produção” em uma empresa multinacional. Pedia formação em engenharia química, dois anos de experiência e o desejável domínio do idioma alemão.

Eu somente atendia à primeira exigência, mas resolvi arriscar e fiz questão de levar pessoalmente o envelope ao correio, como se houvesse uma outra opção.

Confesso que não alimentava grandes esperanças de ser chamado, porém algumas semanas depois, recebi um telefonema de uma moça chamada Estrela me convidando para uma entrevista na tal empresa. Se não a houvesse conhecido pessoalmente logo em seguida, eu juraria ter sido iluminado pela generosa luz de uma desconhecida estrela da sorte.

Eu poderia ou deveria ter ido com traje mais social, mas eu nem imaginava essa alternativa, simplesmente porque não possuía um terno ou algo similar. Assim, com meu melhor jeans e uma camisa discretamente estampada, cheguei para a mais importante entrevista de emprego da minha vida.

Surpreendentemente, não encontrei nenhum de meus colegas de universidade, o que já seria algo inusitado. Obviamente, eles também não se enquadravam ao perfil solicitado e, talvez por isso, não tenham se candidatado.

Quando cheguei à empresa, fui encaminhado ao andar do edifício administrativo onde ficavam as salas das diretorias e, ao entrar em uma delas, um senhor alto e bastante acolhedor me recebeu e pediu que eu me sentasse. Antes disso, apresentou-me a um outro senhor com uma expressão mais séria e que se acomodava com suas pernas cruzadas em uma das cadeiras que circundavam a mesa do diretor.

Eu estava preparado para uma entrevista técnica e até imaginei que seria submetido a uma bateria de testes relacionados aos reatores, colunas de destilação e trocadores de calor, mas a conversa seguiu um rumo completamente diferente.

O executivo mais sério, continuou sério, e foi um completo observador durante todo o tempo em que permaneci naquela sala.

O simpático diretor alemão perguntava muitas coisas sobre minha vida, sobre minhas qualidades e defeitos, pedia minha opinião sobre algumas situações que se configuravam como típicos dilemas profissionais. Seguindo minha intuição, respondia às questões espontaneamente e, em nenhum momento, me preocupei em imaginar se minhas respostas estavam certas ou erradas. O fato é que meu interlocutor era bastante hábil, construiu um diálogo franco e, por isso, não me intimidou.

Num determinado momento, ele disse ter somente mais uma pergunta. Olhou diretamente aos meus olhos e disse:

— Então diga meu jovem: Afinal, o que você espera de sua vida?

Disfarcei a surpresa, fiz cara de conteúdo e busquei em minha mente alguma resposta que pudesse traduzir algo de um tema sobre o qual nunca havia sequer pensado.

Com surpreendente calma, disse ter ouvido dizer que no momento final de nossa existência, temos a chance de assistir em pouquíssimos segundos a um rápido vídeo com a síntese de toda a história que construímos durante a vida. Fiz uma pequena pausa e terminei a frase desejando que somente esperava poder comentar ao final: Puxa! Valeu a pena!

Quando já estava com meus novos colegas, escutei deles que eu era o mais jovem e informal de todos os diversos participantes daquele processo de seleção. Porém, a empresa encontrou em mim o que buscava, ou seja, um profissional que demonstrasse vontade de aprender e que não evidenciasse vícios corporativos de suas experiências anteriores. Ali, aprendi que até mesmo a falta de experiência pode ser um diferencial.

Aliás, meu novo chefe era justamente o silencioso senhor que somente acompanhou a conversa. Ele mesmo, alguns dias depois, contou-me que ficou muito feliz pela minha disposição em estudar e aprender o idioma alemão. Naturalmente, falou isso com um forte sotaque germânico.

Hoje em dia, com o alto grau de competitividade do mercado de trabalho em proporção inversa à disponibilidade de oportunidades, a preparação para uma dinâmica, como a descrita acima, exige uma preparação incomparavelmente maior. Aliás, um candidato com chances concretas nunca irá para uma entrevista em uma empresa sem conhecê-la muito bem. Atualmente, ao contrário do passado, é normal um candidato fazer mais perguntas do que dar respostas durante uma entrevista. Seus conhecimentos técnicos serão sempre essenciais para que possa participar dos processos, mas modernos testes buscarão identificar e avaliar a adequação do seu perfil de competências essenciais em relação à posição em questão.

Em meu caso, a inconsciente opção pela simplicidade em minhas respostas e, principalmente, a escolha por não ser ninguém diferente de mim mesmo, possibilitou que a base de minha carreira pudesse se estabelecer, sem me esquecer da ajuda inicial de algumas pessoas essencialmente generosas que me acolheram e sob os valores e princípios de uma organização que nunca poderei me esquecer.

 

fonte ilustração: Blog: AQO – A quinta onda